Salvem a política: ela caminha sem amor.

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Salvem a política:

ela caminha

sem amor.

 

A política quer ser as mãos de quem se ajuda sem olhar partido. Porque partido parte a gente. Democracia exige honra. E a honra anda assustada com tanto paletó sem alma fingindo compaixão, cantando ideias tortas de pátria.

Nossos ministros confundem cadeira com trono enquanto governantes tiram selfie com o caos como quem visita um zoológico. A verdade, coitada, vive em exílio voluntário, sem CPF, sem partido, sem legenda.

O Congresso virou ringue de vaidades, e o povo, gente da gente, plateia sem bilhete, é quem sente a fome. A esperança não mora em Brasília, mas no puxadinho que se ergueu com ajuda de vizinhos e na marmita dividida.

A política de verdade está no moço que organiza a fila do postinho, na mulher que vai à Câmara exigir o básico: dignidade.

E enquanto isso, tem gente assim, presa no ódio pintado de ideologias que nem sequer entendemos mais. Ideias de quem, afinal? E de qual tempo? Vivamos no hoje antes que nos seja tarde.

O mundo digital, que era para ser recurso, virou veneno. A gente carrega o mundo na palma da mão e já não sabe estender a mão a quem está perto. A gente já entra numa conversa procurando onde o outro errou. Mal termina de ler e já está escolhendo a pedra.

A honra não grita e nem se ajoelha para discurso inflamado. A honra não invade — ela cuida. Não quebra — constrói. Não se esconde atrás de devoção a político de estimação — ela mora no dia a dia do povo que acorda cedo, que vota com esperança e reza baixinho pra ter remédio no postinho.

Quem promete e não cumpre não erra só com o verbo. Erra com a alma. E o brasileiro está com a alma ferida. O Brasil não cabe mais nas urnas. 

Ele está nas panelas vazias, no carrinho vazio e pesado do supermercado, nas mãos de quem cansou de aplaudir mentira com a própria esperança.

O Brasil fez da democracia um espelho rachado: cada pedaço reflete uma versão do país. Tem quem veja vilão, tem quem veja mártir. Mas o que falta mesmo é ver gente! Ver além do vermelho e do verde-oliva. Porque entre os escombros do Congresso e as grades da Papuda, ainda mora o Brasil — confuso, partido, cada um com seu jeito torto de buscar a mesma coisa: a felicidade.

Política possui como condição do próprio conceito o contraste, o contrário, os opostos. Ela exige espaço para a divergência. Sem reconhecer no outro o direito de discordar, não se sustenta a democracia.

Política de verdade precisa tratar feridas sem fingir que só um lado sangra. Se ela não for a arte de remendar o que dói em todos nós, vira só torcida. E torcida não enche panela, não cura ferida, não ajuda nossas famílias, não nos devolve a honra.

Não devolve a dignidade de todos nós.

Falta-nos perguntar ao presente do que ele precisa. Há feridas antigas ainda abertas, mas há dores novas que as velhas bandeiras não aprenderam a enxergar. Honrar as lutas de ontem exige também a coragem de pensar o hoje. O mundo mudou. Nossa maneira de cuidar dele também precisa mudar.

Salvemos a política antes que a gente desaprenda a viver junto. Discordar não pode nos custar uns aos outros.

Enquanto tudo isso não couber no discurso, que caiba pelo menos em nossas mãos. A política caminha sem amor. Mas nós não precisamos seguir assim.

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Sobre a autora

Patricia Volpe

Filósofa, Escritora, Produtora, Pesquisadora em Formação Humana e Pós-graduada em Logoterapia e Análise Existencial.