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Você é uma mulher de direita?

Talvez essa pergunta seja mais difícil do que parece

 

Há alguns anos, quando imaginávamos uma mulher de direita, provavelmente vinha à cabeça uma figura bastante específica: religiosa, casada, mãe, discreta, defensora da família, pouco afeita a festas e distante de comportamentos considerados “liberais”.

Essa imagem ainda existe. Mas talvez já não seja suficiente para explicar a direita brasileira de hoje.

Basta olhar para uma figura como Ana Castela.

A “boiadeira” é jovem, bonita, milionária, independente, circula entre homens e mulheres, bebe, faz sucesso, mistura sertanejo, pop e funk e construiu uma imagem profundamente ligada ao campo e ao agronegócio. Ao mesmo tempo, sua imagem pública passou a circular cada vez mais próxima de personagens da direita brasileira.

Não estou dizendo que Ana Castela seja uma representante oficial da direita (ela própria já negou algumas associações políticas). O que me interessa é outra coisa: por que uma figura como ela pode conversar tão bem com o imaginário de uma parte da direita jovem?

Talvez porque ela represente uma transformação importante na ideia de sucesso. A mulher conservadora de antigamente precisava, sobretudo, ser respeitável. A mulher conservadora de hoje pode ser convidada a ser bem-sucedida. Ela pode ganhar dinheiro, ter seu próprio negócio, viajar, beber, se vestir como quiser e ocupar espaços públicos. Não precisa necessariamente ser submissa. Pode ser uma mulher “de família” e, ao mesmo tempo, uma mulher de sucesso.

Essa mudança parece pequena, mas diz muito sobre o Brasil atual.

Do “ser respeitável” ao “vencer na vida”

Durante muito tempo, nossa ideia de distinção social esteve associada a determinados comportamentos. Era preciso falar de determinada maneira, frequentar determinados lugares, ouvir determinadas músicas, vestir determinadas roupas. A cultura popular, muitas vezes, era aquilo de que as classes mais altas procuravam se diferenciar.

Hoje, algo curioso acontece.

O sertanejo, o rodeio, o cavalo, a fazenda, a caminhonete e a estética do interior passaram a ser, para muita gente, símbolos de sucesso.

O campo deixou de ser apenas o lugar de quem trabalha na terra. Passou também a representar uma vida desejável: espaço, dinheiro, liberdade, família, festa, natureza e prosperidade.

Não por acaso, o chamado agronejo cresceu justamente articulando esses elementos. É uma espécie de nova fantasia de ascensão social: “Eu posso vir do interior e chegar ao topo sem deixar de ser quem sou.” E talvez seja justamente aí que a política comece a se misturar com a cultura.

A direita aprendeu a falar sobre desejo

Existe uma diferença importante entre dizer a alguém: “Nós temos políticas que podem melhorar a sua vida”  e dizer: “Nós somos como você.” A primeira frase fala de política pública. A segunda fala de identidade. E identidade é uma força política enorme.

Uma pessoa pode ganhar pouco, trabalhar muito e depender de serviços públicos. Mas pode não se definir principalmente como “trabalhadora precarizada”

Pode se definir como mãe. Como cristã. Como empreendedora. Como alguém do interior. Como alguém que gosta de sertanejo. Como alguém que quer comprar uma casa. Como alguém que quer abrir um pequeno negócio. Como alguém que sonha em dar uma vida melhor aos filhos.

Essas coisas também são política, ainda que não pareçam.

E talvez aqui exista uma questão importante para a esquerda

A esquerda brasileira continua defendendo, em grande medida, políticas voltadas justamente às pessoas que mais precisam delas. Salário mínimo, aposentadoria, saúde pública, educação, programas de transferência de renda, direitos trabalhistas, moradia. Mas defender os interesses de alguém não significa necessariamente fazer essa pessoa se sentir representada.

É possível dizer: “Nós estamos lutando por você” e a pessoa responder: “Mas eu não me reconheço em vocês.” 

Esse talvez seja um dos problemas mais interessantes da política brasileira contemporânea.

Partes da esquerda passaram a ser identificadas com a universidade, com a intelectualidade, com determinados grupos culturais e com uma linguagem que, embora tenha razões e fundamentos importantes, pode parecer distante da vida cotidiana de quem não circula nesses ambientes. Não é uma questão de saber quem está certo. É uma questão de proximidade.

Quem fala com você?

Imagine duas pessoas dizendo coisas diferentes para uma mulher que trabalha o dia inteiro, cuida dos filhos e quer melhorar de vida. Uma diz: “Você vive em uma sociedade marcada por desigualdades estruturais de classe, gênero e raça.” A outra diz: “Você é uma mulher batalhadora. Trabalha, cuida da sua família e pode vencer.”

A primeira pode estar descrevendo a realidade com enorme precisão. Mas a segunda talvez esteja produzindo uma identificação muito mais imediata. Porque uma fala sobre a estrutura. A outra fala sobre ela.

E existe uma diferença enorme entre se sentir protegido por uma política e se sentir reconhecido por uma identidade.

É por isso que a direita pode crescer entre pessoas que não são ricas

Existe uma pergunta recorrente: “Como uma pessoa pobre pode votar na direita, se a direita defende interesses de pessoas ricas?” Talvez a pergunta esteja incompleta. Ela parte do pressuposto de que as pessoas votam somente de acordo com seu interesse econômico. Mas nós não somos apenas nossa renda. Somos também nossas crenças, nossos valores, nossas relações, nossos desejos e as histórias que contamos sobre nós mesmos.

Uma pessoa pobre pode não se imaginar como parte da elite econômica. Mas pode se imaginar como parte de um grupo que trabalha, tem fé, valoriza a família, quer segurança, quer prosperar e não quer que ninguém diga como deve viver. É aí que aparece uma expressão poderosa: “pessoa de bem”. Ela não é uma categoria econômica. É uma categoria moral. E justamente por isso consegue atravessar classes sociais.

O curioso é que a promessa não precisa ser “você já venceu”

Pode ser: “Você pode vencer.” Essa talvez seja uma das mensagens mais fortes da direita contemporânea. O empreendedorismo, a estética do agro, os influenciadores, os artistas e até a ostentação trabalham com uma ideia de futuro.

A pessoa não precisa ter uma caminhonete para desejar aquela vida.

Não precisa ter uma fazenda para admirar quem tem. Não precisa ser milionária para imaginar que um dia poderá ser.

Ana Castela é interessante nesse sentido. Sua imagem não diz apenas: “Eu sou rica.” Ela conta uma história muito mais poderosa: “Eu vim de um lugar como o seu e consegui.” É a diferença entre representar uma classe e representar uma possibilidade.

Mas será que isso significa que você é de direita?

Aqui está a pergunta que considero mais interessante. Talvez não. Ou talvez sim. Mas vale pensar um pouco antes de responder.

Se você gosta de trabalhar, quer ter seu próprio negócio e acredita que cada pessoa deve ter liberdade para construir sua vida, isso faz de você uma pessoa de direita? Se você valoriza a família, a religião e a segurança, necessariamente você é de direita? 

Se você não gosta do PT, isso significa que você é de direita? Se você gosta de Lula, necessariamente é de esquerda? Se você é contra o aborto, é de direita? Se é favorável ao SUS, é de esquerda? Se acredita em empreendedorismo, precisa ser liberal? Se acredita em programas sociais, precisa ser socialista? Talvez tenhamos simplificado demais nossas identidades políticas.

Porque é perfeitamente possível discordar da esquerda sem ser de direita

E também é possível concordar com a direita em algumas coisas sem ser de direita. Você pode defender o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, acreditar em direitos trabalhistas.

Pode valorizar a família e defender a igualdade entre homens e mulheres. Pode gostar de religião e defender um Estado laico. Pode querer segurança pública e, ao mesmo tempo, defender direitos humanos. Pode gostar do agronegócio e defender a proteção ambiental. Pode acreditar no esforço individual e reconhecer que as pessoas partem de lugares muito diferentes.

Pode querer pagar menos impostos e, ao mesmo tempo, defender serviços públicos de qualidade.

A política não precisa ser um pacote fechado.

A pergunta que deveríamos fazer em vez de começar com: “Sou de esquerda ou de direita?”, talvez pudesse começar com: “O que eu realmente acredito?”

O que penso sobre saúde? Educação? Impostos? Trabalho? Segurança? Religião? Meio ambiente? Direitos das mulheres? Direitos das minorias? Empreendedorismo? Programas sociais? Liberdade individual? Desigualdade?

E, principalmente: quais dessas posições são realmente minhas e quais eu adotei porque as pessoas ao meu redor pensam assim?

Essa última pergunta é desconfortável. Mas talvez seja uma das perguntas mais importantes da política.

A política também é uma disputa pelo desejo

Talvez a esquerda brasileira tenha uma tarefa difícil pela frente. Não basta lembrar às pessoas que determinadas políticas públicas melhoraram suas vidas. Também é preciso disputar a ideia de futuro. Não apenas dizer: “Nós vamos proteger você.” Mas também: “Que vida você gostaria de construir?”

Não apenas falar de desigualdade, mas falar também de prosperidade. Não apenas falar de direitos, mas falar também de desejo. Não apenas denunciar os obstáculos, mas mostrar possibilidades. 

Ninguém quer passar a vida apenas tentando não cair, as pessoas também querem subir. Querem uma casa melhor, um carro melhor, viajar, ter dinheiro, dar uma vida boa aos filhos, ter tempo, ter segurança, ter liberdade, serem respeitadas, serem felizes.

Isso não é de esquerda nem de direita, é humano.

 E talvez a política brasileira esteja justamente vivendo uma disputa para decidir quem será capaz de dar significado a esses desejos.

Ana Castela, com sua mistura de campo, juventude, dinheiro, feminilidade e sucesso, é apenas uma das expressões mais visíveis dessa mudança. A pergunta que fica, portanto, talvez não seja se a boiadeira é de direita.

É outra: quando você olha para a vida que ela representa, o que exatamente você está desejando?

E, quando olha para a política que escolhe, vale perguntar: essa escolha realmente corresponde ao que você deseja para a sua própria vida e para a sociedade, ou você apenas encontrou um grupo no qual se sente pertencente?

Talvez descobrir isso seja uma das formas mais honestas de escolher em quem votar.

Afinal, você é uma mulher de direita?

Sobre a autora

Oi, eu sou a Evelyn

Socióloga de formação, comunicadora por vocação e fundadora do Prosa da Boa. Escrevo sobre política, comportamento e cultura popular para quem quer entender o Brasil além do algoritmo e gosta de olhar para o que move as pessoas de verdade. Acredito que dá para falar de temas espinhosos sem gritaria, com leveza e ouvindo quem pensa diferente. Puxa uma cadeira e bora prosear.